Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Achados no baú (1)

À medida da disposição e disponibilidade aqui reinantes, irão aparecendo - nesta rubrica Achados no baú - alguns textos publicados em tempos mais ou menos idos, descobertos pelo próprio ou por mão amiga numa qualquer gaveta, arquivo ou disco rígido que os tenha conservado ao abrigo do pó.

Gostaria de alertar que, em comparação com os originais, poderão ocorrer algumas pequeníssimas alterações, provocadas por gralhas, emendas, cortes ou modificação de títulos, decorrentes em certos casos da própria edição dos textos impressos. No mesmo sentido, e sempre que necessário, aparecerão algumas indicações, correcções ou actualizações entre parêntesis [rectos], por exemplo relacionadas com datas.

 

Doctor Miles - anos 80

(in Sete, 30.03.1988)

 

A recente edição [1988] em Portugal do último álbum com a participação de Miles Davis - a banda sonora do filme Siesta, da autoria de Marcus Miller - é oportunidade adequada para o «Sete» recordar a discografia do grande mestre do jazz referente a estes ricos anos 80.

 

É necessário sublinhar que se trata de um período extremamente intenso, rico e polémico na actividade artística de Miles, o qual desaparecera da cena musical durante seis anos, seriamente afectado por problemas de saúde que chegaram a fazer recear o seu abandono definitivo dos palcos e dos estúdios.

Costuma afirmar-se, com verdade, que a carreira criadora de Miles Davis durante as últimas quatro décadas [1988] (desde que, com apenas 19 anos, se afirmou como novíssimo talento ao lado de Charlie Parker, em 1945), tem acompanhado regularmente a história do jazz correspondente ao mesmo período.

Mas, muito mais importante do que isso, a realidade é que Miles determinou a própria evolução desta música e esteve presente em quase todos os saltos qualitativos entretanto verificados.

Hoje [1988] com 72 anos, Miles Davis é dos últimos músicos vivos da sua geração e, de entre eles, o mais genial e eternamente jovem.

Como podem comprovar escutando as suas últimas gravações.

 

The Man With The Horn (1981)

É o primeiro álbum gravado por Miles após o seu regresso aos estúdios. O material temático nele incluído foi escrito e arranjado pelo trompetista, excepto The Man With The Horn e Shout, ambos com autoria e arranjos de Randy HallRobert Irving III que também participam como músicos, respectivamente na guitarra, teclados, sintetizadores e vozes e no piano acústico.

A maioria dos temas tem como base estruturas harmónicas mínimas, girando à volta de um ou dois únicos acordes. Geralmente pouco inventivos, constituídos na generalidade por fragmentos melódicos que ciclicamente se repetem, roçam por vezes um confrangedor comercialismo (ex.: The Man With The Horn), com duas honrosas excepções: Fat Time, com belas prestações de Marcus Miller no baixo e Mike Stern na guitarra, e Ursula, o mais criativo e claramente experimental.

No grupo, a revelação é o soprano de Bill Evans, lírico e poupado como o mestre, mas também arrojado e violento. Ritmicamente, estamos ainda mais próximos do rhythm 'n' blues e do funk-afro do que do rock e, neste campo, Al Foster é bem melhor do que o medíocre Vincent Wilburn.

 

We Want Miles (1982)

Grande momento de criação colectiva, este é o álbum que verdadeiramente marca o regresso em força de Miles nos anos 80.

Longe das tentações alquimistas dos estúdios, este duplo gravado ao vivo em Junho, Julho e Outubro de 81 em Boston, Nova Iorque e Tóquio, é o salto qualitativo do trompetista no calor do contacto com o público, na exploração total das sonoridades abertas e com surdina, no estabelecimento dialéctico das dinâmicas contrastantes, na impetuosa vitalidade de um eterno jovem descobridor de outros jovens.

O ouvinte pode finalmente aprofundar o conhecimento de um excelente saxofonista, Bill Evans (aqui também em tenor). Al Foster e Mino Cinelu, na bateria e percussão, e Marcus Miller, no baixo, são esmagadores e insuperáveis em Fast Track e, sobretudo, na exploração e no preenchimento dos silêncios e cortes magistrais no discurso de Miles, naquela que é a obra perfeita de todo o disco - uma nova versão de My Man's Gone Now de Gershwin.

 

Star People (1983)

Atenção! Não haja confusões: em conjunto com We Want Miles, do ano anterior, este é o álbum definitivo do trompetista nesta década, uma gravação em que o gosto pela aventura e as memórias da tradição regressam em pleno e coabitam de forma imparável e exemplar.

Num total de seis temas, quatro-deles-quatro são imprescindíveis no repertório de Miles - Come Get It, Speak, It Gets Better e Star People, atingindo mesmo os dois últimos o cume das obras-primas!

Aqui, Miles utiliza uma técnica original que mais tarde abandonaria: o ataque na mão esquerda com os teclados e sintetizadores e na mão direita com o trompete, que cria uma potência sonora única e poderosa e um timbre de big band verdadeiramente inovador. O uso da electrónica e dos efeitos de estúdio rejeitam ainda o artificialismo e a banalidade, antes constituem sinais inequívocos de experimentação conseguida.

Um disco «enorme» que nos faz revisitar os sons e as imagens da grande música negra, desde a homenagem a Armstrong (Miles), ao washboard do jazz primitivo (Al Foster), às referências a B.B.King (John Scofield e Mike Stern), num pano de fundo em que os blues, como é habitual em Miles, estão sempre presentes.

Ainda: um solo de antologia do trompetista em Star People e a subtileza e a simplicidade dançantes de um tema (U'n'l) que nos recorda surpreendentemente essa delícia que é Ain't She Sweet.

 

Decoy (1984)

As principais referências deste álbum vão para o surgimento do então novato Branford Marsalis (sax-soprano), cuja modernidade clássica contrasta com a aventura de Bill Evans. Mas, para além dos excelentes arranjos de MilesGil Evans (outro mestre dos sons, recentemente desaparecido [1988] e que ainda acompanha o trompetista nesta década), outra figura do disco é Robert Irving III, engenhoso na utilização dos sintetizadores.

O trabalho de estúdio, a manipulação técnica, a utilização das multipistas e a primazia da pós-produção começam a sobrepor-se à espontaneidade criadora.

Miles está num dos seus melhores momentos, sobretudo no que se refere à pureza da sonoridade e ao domínio instrumental, Scofield continua soberano e, no plano temático, a referência a That's Right e What It Is é obrigatória, constituindo esta última uma espantosa gravação em público com um Darryl Jones verdadeiramente fabuloso em baixo.

 

You're Under Arrest (1985)

Música urbana por excelência, com tudo o que isso reflecte de tentação da cedência às modas e aos gostos dominantes, este álbum é o trabalho mais decepcionante de Miles Davis até hoje [1988] publicado nesta década. As máquinas de ritmos, os Simmons Drums e toda a panóplia dos efeitos de estúdio mais comerciais sobrepõem-se à criatividade.

You're Under Arrest, mais do que um álbum de verdadeira modernidade, é muito mais um produto em que os «achados» da encenação sonora (One Phone Call) não escondem a pobreza dos temas, todos eles subsidiários, como toda a concepção geral, de uma certa estética-rock. Miles está na sua pior forma de sempre e é claramente superado por Scofield e McLaughlin, nas guitarras.

Apesar de tudo, escapa o tema que dá o nome ao álbum, em que apenas se lamenta não ter sido dado mais espaço ao talento de um novo saxofonista - Bob Berg.

 

Tutu (1985)

Na linha do álbum anterior para a CBS, mas muitíssimo superior.

Tutu é (com We Want Miles e Star People a grande distância) a terceira melhor gravação de Miles nesta década e a consagração definitiva de Marcus Miller como arranjador brilhante e um dos maiores baixos-eléctricos de sempre.

Regressam aqui a imaginação, a sonoridade única do trompetista e a economia eficaz que constituem o génio da sua invenção melódica. Splatch e Full Nelson são as «pedras-de-toque» deste álbum onde se lastima apesar de tudo a penosa sensação de que a base sonora, quase totalmente a cargo de Miller, está laboriosamente acabada e misturada em estúdio para que depois surja o trompetista a colocar a sua voz nos espaços e pausas previamente determinados. Boa prestação de Michael Urbaniack em violino eléctrico.

 

Siesta (1987)

É sempre difícil avaliar a qualidade da música de fundo de um filme isolada do próprio contexto do objecto cinematográfico, sobretudo quando ele é ainda inédito [1988] entre nós. A audição deste álbum leva no entanto a antever que Siesta não será porventura obra indispensável na cinematografia actual, a não ser, talvez, pela presença de Isabella Rossellini e Jody Foster...

De qualquer modo, e ao contrário do que acontecia com o Ascensor para o Cadafalso, de Louis Malle, velhinho de trinta anos [1988], estamos aqui perante música que não se enquadra no âmbito do jazz, por mais amplo e generoso que ele seja. E mesmo que Miles se mantenha inabalável nos seus sons cristalinos e puros e na sua sensibilidade incomparável, a personalidade deste príncipe diabólico não chega para superar a superficialidade do falhado projecto musical de Marcus Miller, revelador além do mais de uma incompreensão profunda da riqueza rítmica da música espanhola.

O ridículo patético de John Scofield na guitarra clássica é para esquecer e, porque a beleza inconsequente de outras passagens se revela esteticamente inútil, apenas é de reter, no plano puramente musical, o tema Claire com um elegante fundo de flautas.

Siesta é, talvez, um ponto de impasse no momento actual da carreira genial de Miles Davis. Vamos todos esperar que ainda tenha tempo para regressar, com engenho e arte.

Ainda antes da década de 90.


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:37
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